Quando criança minha mãe dizia que meu pai era um grande soldado e que precisava defender o mundo dos caras maus. Logo, por esse motivo, ele não tinha muito tempo disponível para mim – seu filho de apenas seis anos – porém, me lembro que achei isso um máximo: o meu pai ser um herói! Então, decidi expressar o meu orgulho e admiração. Mesmo não sabendo muito na época o que essas palavras significavam.
A primeira carta:
“Pai, mamãe me contou da sua batalha, que o senhor luta contra caras maus e que por isso não tem tempo para me ver. Ela me explica tudinho e espero ver seu uniforme quando eu for para escola. Ela me disse que um dia o meu papai aparece por lá. Te amo muito”.
Logicamente, a carta possuía bem mais erros gramaticais, porém a essência era essa. Hoje, descobri uma coisa: não importa como você expressa o que sente. O importante é expressar. Não deixar que o tempo leve embora as oportunidades, pois tudo é veloz e imensurável! Porém meu pai não me respondeu a carta e nem foi me ver na escola. De fato, minha doce mãe lhe entregou as doze cartas que fiz no decorrer de um ano. Ela ia ao seu escritório e deixava na mão da secretaria as cartinhas feitas por mim e mais tarde sempre ligava para ele para saber se havia recebido. Ele dizia a ela:
- Respondo depois! – ele nunca respondia...
No meu aniversário de sete anos perguntei a ela o porquê do meu herói não vir a minha festa. Com um pouco de lagrimas nos olhos Alice – minha mãe – me respondeu:
- Uma vida de herói requer muitos sacrifícios e ele está com o coração partido por não poder te ver – creio que Alice teve engolir o resto do choro para não criar alarde. Foi aí que decidi escrever mais uma carta.
A 13º carta:
“Papai, mamãe me disse que o senhor está com o coração partido. Não queria fazer isso com você. Não queria quebrar o seu coração. Espero que no aniversário que vem ele esteja inteiro para me ver. Te amo”.
Continuei enviando cartas por mais três anos. Uma por mês. Até que completei dez anos e percebi que algo não se encaixava. Alice me dizia que ele pagava a pensão e que se preocupava com os meus estudos. Sempre perguntava se tirava boas notas na escola e a resposta era sim. Eu era um aluno aplicado, principalmente, em matemática e língua estrangeira. Sim, não existia mais aquele historia de soldado ocupado em salvar o mundo! Mas sim, um pai ocupado, precisando trabalhar para pagar as contas, então, pensei comigo mesmo: “se eu trabalhar papai vai ter mais tempo”. Logo, decidi cortar a grama dos visinhos; ensinar meus amiguinhos da escola com aulas extras; vender suco na rua, entre outras coisas que não me recordo agora. Por fim, quando achei que tinha dinheiro suficiente para pagar um dia dele ao meu lado escrevi outra carta. Ah, sim! Não contava mais quantas havia escrito.
Outra carta:
“Pai, hoje estou enviando o dinheiro que consegui trabalhando para que o senhor venha passar algum tempo comigo, pois sei que trabalha muito. Te amo”.
Alice levou como sempre a minha carta ao seu escritório, porém diferente das outras vezes, sempre quando voltava, ela não fingiu animo nem um sorriso largo nos lábios para me acalmar, pelo contrario, chorou até que seus olhos inchassem. Neste instante, soube que as minhas cartas não resolviam nada e que eu magoava a minha mãe pedindo a ela que as entregassem. Resolvi não escrever mais. O tempo passou e em um dia qualquer Alice me disse que da ultima vez que ela foi ao seu encontro meu pai havia dito o seguinte:
- Não deixe esse menino trabalhar por motivos banais. Quero que ele se forme e se torne um homem promissor. Não deixo faltar nada a ele, comida, roupa, excelente escola, jogos... tudo! Devolva esse dinheiro a ele e tome mais.
Neste mesmo dia perguntei a ela se ele possuía algum motivo a mais além do trabalho para não me ver. Alice não conseguiu justificar ou falar algo, certamente, nada nesse mundo justificaria isso, então, preferiu o silêncio a ofertar palavras vazias. Com vinte e dois anos estou me formando e indo morar longe daqui. Bem, no inicio eu ia fazer mestrado nos Estados Unidos. Estava tudo certo e minha adorável mãe era só orgulho, mas algo aconteceu. De manhã quando sai para comprar pão não vi que um carro avançou o sinal vermelho e agora, de repente, estou tendo essas lembranças! Vendo minha mãe, meus amigos e meu pai pela primeira vez!Não sei como sei que é ele, apenas sei. Estão todos de preto e suas faces vermelhas pelo choro. Ah! Não queria que eles estivessem assim. Eu estou tão bem! Realizei o meu maior sonho: ver meu pai e receber uma carta sua. Ela dizia:
Carta de uma pai ao seu filho!
“Não mereço seu perdão, mas o peço agora! Você foi e é o melhor filho que um pai poderia ter tido. Estou com o coração partido por você ter ido embora e eu ter falhado com você. Queria poder voltar no tempo e responder a sua primeira carta e todas as outras, mas não posso. Não sei se um dia vou me perdoar! Só queria dizer que sinto orgulho de você. Sua mãe sempre me dizia como você era um garoto bom e estudioso. Hoje sei que nada deveria ter me afastado de você, mas não pensei que fosse ir tão logo, tão cedo. Perdão meu filho, perdão!”
Porém agora tenho que ir! Vejo uma luz bonita me esperando e sinto que as minhas cartas foram válidas, pois sei que expressei o meu amor. A luz é agora e aqui!
O tempo é valioso para se perder bom bobagens e mesquinharias! Com medo e vaidade! Com grosseria e ganância! Com soberda e "desesperança" (...)
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Lindo texto.
ResponderExcluir"Logo, decidi cortar a grama dos visinhos"
ResponderExcluirviZinhos
A estrutura do texto foi irônica: ao mesmo tempo que você enrola e repete a mesma coisa diversas vezes, isso ajudou para impactar mais no final. Talvez se tivesse diversificado mais no decorrer da história, ficaria melhor.